
Bruna Frascolla
A ciência nasceu do Deus engenheiro cristão. Hoje, o materialismo ateu domina as universidades, mas mantém sociedades secretas e ambíguas.
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Possivelmente, há mais de uma resposta correta à pergunta de por que a ciência surgiu na cristandade ocidental, em vez de ter aparecido primeiro numa das muitas sociedades orientais com tecnologia formidável, ou no seio do paganismo greco-romano.
O epistemólogo beneditino Stanley Jaki tem uma resposta detalhista e intrínseca ao próprio cristianismo: segundo lemos em Christ and Science, o diferencial é os cristãos não serem propensos a cair no panteísmo. Entre os pagãos greco-romanos, o cosmos era chamado de "unigênito", título assumido depois por Jesus no cristianismo, e somente no cristianismo. No mundo de Aristóteles, o pagão predileto da cristandade ocidental, os corpos se movem por vontade própria (o fogo quer subir, a terra quer afundar etc.), e o Primeiro Motor é parte da natureza, em vez de transcendê-la. No judaísmo e no islamismo, as figuras de Spinoza (amado no s. XX por Einstein e Sagan, e no XXI por Sam Harris) e de Averróis (com seu intelecto universal) mostram que é fácil confundir Deus com a própria natureza. É na cristandade medieval que o mundo passa a ser concebido à maneira de um grande relógio com as peças inanimadas ajustadas por um Criador inteligente, cujas leis devemos descobrir. Esse estilo de pensar o universo, que hoje associamos a Newton, é medieval. E essa cosmovisão, específica da cristandade, é o que possibilitou a invenção da ciência.
Aqui nesta SCF, cheguei a aventar uma resposta mais modesta, de natureza cultural. Escrevi que Ocidente é racionalista desde antes de ser cristão; e isso favorece não só o surgimento da ciência, como a disposição para mantê-la em caso de conflito com a fé. Os sunitas, que são a maioria dos muçulmanos, viram uma espécie de literalismo corânico acabar com o espetacular florescimento das ciências na Idade Média. Já os judeus, que se entregavam à exegese de textos religiosos, só se tornaram cientistas com a emancipação e a laicização. Essa característica cultural ajuda a explicar por que a Ciência surgiu na cristandade ocidental, em vez da oriental, já que tanto a Igreja Romana quanto a Grega compartilham a crença no unigênito Jesus. Isso também ajuda a explicar por que, quando a Reforma protestante aconteceu, a Europa protestante não se apegou ao literalismo bíblico, nem às invectivas de Lutero contra a razão, e produziu ciência em diálogo com a Europa católica. Isso acabou deslocando a Verdade da religião (que cada uma tinha a sua) para a ciência (a ser aceita por todos), criando terreno para essa invenção recente ocidental chamada cientificismo.
Agora, uma ideia intrínseca ao cristianismo que eu queria apontar é a absoluta intolerância ao relativismo no conhecimento. No mundo pagão, filosofia e religião eram assuntos desconectados. Platão refletia sobre o bom, o belo e o justo sem investigar o Olimpo. Cícero, enquanto filósofo, escrevia contra os adivinhos públicos da religião romana; mas, enquanto político, não esboçava nenhuma intenção de alterar as práticas da religião de Estado, nem de inventar o laicismo. Nem mesmo Aristóteles, que escrevia sobre todas as disciplinas concebíveis, escrevia sobre Zeus, Hera ou Atena. Ele até criou uma "teologia", mas não se referia aos deuses e sim ao Primeiro Motor. Zeus, Hera e Atena não eram objeto de uma disciplina.
Foi na Idade Média que a Igreja Católica inventou a universidade com a intenção de estudar o universum, isto é, tudo: metafísica, física, política, teologia... O conhecimento estava ordenado de modo coeso, presumindo uma realidade objetiva. Assim, a física não podia ensinar uma coisa que estivesse em contradição com a teologia, e vice-versa. (Embora o problema de Galilei se deva ao aristotelismo abraçado pela Igreja via Tomás de Aquino, e não a uma leitura literal da Bíblia.) Essa coesão pode parecer óbvia, mas nos dias de hoje a disciplina "física" diz que o vidro é líquido, enquanto a disciplina "química" diz que o vidro é sólido. E esse nem é o maior dos problemas: quem se atreveria a pedir uma definição unívoca de "homem" ou "humano" a uma universidade ? Na prática, o relativismo impera na universidade mesmo antes de os pós-modernos tomarem conta de tudo.
Essa fragmentação do conhecimento teve origem no modelo de ciência surgido na Renascença. Fora das universidades, os humanistas buscavam os textos antigos que os católicos medievais haviam descartado, como o De rerum natura, do materialista e epicurista Lucrécio. Como naquela época a antiguidade conferia autoridade, o ocultismo formado pela fusão entre o hermetismo e a cabala gozou de especial credibilidade entre os letrados de modo geral. O hermetismo vem de Hermes Trismegistos, que os renascentistas acreditavam ser o professor de Moisés, Platão e Pitágoras - mas na verdade era uma ficção um pouco mais nova que Cristo. Um vestígio etimológico da importância do hermetismo para a ciência é o adjetivo "hermético", usado pelos alquimistas com seus potes muito bem fechados. Quanto à cabala, ela vem da religião que precedeu o cristianismo e isso basta para ser entendida como muito antiga - mesmo que seu principal texto, o Zohar, seja da Espanha medieval. Conforme argumentei em maior detalhe aqui, o ocultismo da Renascença influenciou a ciência moderna, e é responsável pelo seu viés utilitarista. Se cada disciplina decidir que um determinado conceito "funciona" e houver contradição entre elas, não há problema, pois o que interessa não é o conhecimento, mas sim o caráter prático. É uma ciência inspirada no procedimento do feiticeiro, que fica consultando livros antigos e testando feitiços para descobrir se funcionam.
Digamos então que o status quo do conhecimento nas universidades é um relativismo prático decorrente da falta de uma visão unitária por parte da instituição. No âmbito individual, porém, é humanamente impossível fazer ciência sem uma cosmovisão coerente - nem que seja uma elaborada a posteriori com base nos "feitiços" que funcionaram, à maneira dos alquimistas na Renascença. Hoje, está muito claro que o mainstream científico é ateu, mas isso é pouco informativo. Seria mais preciso dizer que o mainstream é materialista.
O século XIX é o século da consolidação do materialismo na ciência. É o século do triunfo de Darwin, o primeiro (e talvez único) grande cientista inequivocamente ateu da História. Antes de Darwin, predominava a cosmovisão medieval do Deus relojoeiro, ou da natureza como o livro escrito em linguagem matemática por Deus (para usar a metáfora de Galileu). Na Renascença, vão despontando cosmovisões alternativas. No Iluminismo, essa movimentação ganha as formas do deísmo e do materialismo, que não são mutuamente excludentes. O deísmo é a ideia de que Deus existe, porém não se importa com a humanidade. Essa é uma ideia muito vaga, pois compreende as possibilidades de (1) Deus ser um arquiteto distante (como para Voltaire, um "criacionista" entusiasta de Newton); (2) Deus ser a própria matéria, ou o próprio universo (panteísmo); (3) os deuses existirem e serem feitos de átomo como o resto da natureza - opinião que consta no De rerum natura e resulta num ateísmo prático. Como esta concepção de Deus é psicologicamente difícil de sustentar, não é de admirar que, no século XIX, a feição pública do materialismo já tenha sido a do ateísmo.
Ainda assim, como mostrei aqui na SCF, só um dos "quatro cavaleiros" do neoateísmo (Richard Dawkins) é inequivocamente ateu. Os outros três (Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens) são adeptos ou de um New Age lisérgico, ou do judaísmo, ou das duas coisas. Sagan era outro ateu com esse perfil ambíguo.
Creio então ser útil discriminar essas duas cosmovisões científicas opostas: uma, originadora da ciência, é a do Deus transcendente engenheiro do cosmos; outra, a do materialismo, segundo o qual tudo o que existe é matéria a movimentar-se de maneira aleatória, gerando ora caos, ora ordem. É possível, dentro desta última, ser um ateu inequívoco como Dawkins hoje ou Barão d'Holbach no XVIII; e é possível também ser um New Age como Sam Harris. A matéria é, também ela, divinizável por parte de peruas dos cristais e maconheiros. E uma figura ambígua é ninguém menos do que Epstein, já que esse mecenas era um judeu religioso o bastante para querer criar um porco kosher GMO a fim de comer bacon, mas ao mesmo tempo financiava o clube de ateus de Sam Harris. Tal como mostrei aqui, Epstein era adepto do materialismo a ponto de querer identificar a parte do cérebro que corresponde à alma.
Um último traço intrínseco do cristianismo que vale mencionar é o seu exoterismo, isto é, o seu caráter público e não iniciático. Essa característica se reflete na universidade e nas bibliotecas: todo o repositório de conhecimento está público para aquele que quiser estudar. No caso do materialismo, desde o XVIII a Inglaterra tem na Lunar Society uma tradição sólida de sociedades científicas privadas e secretas, amiúde com finalidade comercial. Isso também está de acordo com o esoterismo da Renascença. E no século XXI, os Arquivos Epstein trouxeram à tona sociedades discretas de materialistas, tais como a de Sam Harris financiada pelo pedófilo.
Dado que o pedófilo também financiava pesquisas na universidade, é plausível que esse materialismo limítrofe entre o panteísmo e o ateísmo seja uma "teologia" oculta, sempre presumida na ciência atual, porém nunca explicitada para os não iniciados.