🧠 22/09/2026 strategic-culture.su  8min ⁑️ 🇸🇹 #327551

Carl Sagan e o espectro do pedantismo que ronda o Ocidente

Bruna Frascolla

Carl Sagan moldou subcultura de superioridade científica que justifica tecnocracia, neomalthusianismo e obediência às vacinas. Pedantismo ocidental.

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Não é raro ver, em rede social, as pessoas dando umas às outras os parabéns por mais uma volta ao redor do sol (isto é, pelo aniversário), sinalizando antes os próprios conhecimentos científicos ou a pertença a uma subcultura do que os bons votos. A ideia algo piegas de que somos poeira de estrelas também é repetida por quem queira parecer ilustrado. Dado que ambas as frases feitas vêm de Carl Sagan, concluí que é razoável inferir que esse famoso divulgador científico moldou uma subcultura ocidental consideravelmente influente: a da gente que, por seguir as tendências ditadas por divulgadores científicos nas redes sociais, ou simplesmente por ser ateia, sente-se moral e intelectualmente superior ao restante da humanidade que não compartilha dos seus hobbies e convicções. Assim sendo, é necessário ler Carl Sagan para entender uma vertente cultural relevante no ocidente de hoje.

Seu livro mais mencionado pelos adeptos dessa subcultura é O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro (1995). Como a minha formação é de historiadora da filosofia, só pelo título já vejo que é uma obra epicurista. No De rerum natura, do epicurista romano Lucrécio, a religiosidade comum é apresentada como o angustiante efeito do desconhecimento das causas naturais - causas que são estritamente materiais, pois nada há senão átomos e vazio, os átomos movimentando-se às cegas e gerando ora ordem, ora desordem, por toda a eternidade. Não há Big Bang, nem Criação, nem Apocalipse. Com o conhecimento (scientia), isto é, com a ciência, vem a paz de espírito. Essa ideia parece muito moderna, mas é mais velha do que Cristo. (Quanto ao Big Bang, Sagan supõe que um dia se descubra que o universo se expande e depois se contrai, transformando o Big Bang como que num estágio de um universo sanfona, que abre e fecha. Isso restauraria o mundo eterno dos antigos.)

Mas, tendo averiguado as opções disponíveis, a que me pareceu mais informativa foi Bilhões e bilhões (1997), o derradeiro livro de Sagan, testamento político publicado pela viúva pouco após sua morte. Nesse testamento, ele defende o ambientalismo e o aborto. Concluí que é isso mesmo o que eu quero, pois hoje quem não manifesta angústia com o planeta, nem considera o aborto um direito humano da mulher, é visto como um bárbaro pelos bem-pensantes que se cumprimentam uns aos outros pela mais nova volta ao redor do sol.

A leitura tem se provado, de fato, iluminadora sobre a mentalidade materialista e dogmática que se tornou insensivelmente mainstream nas classes médias ocidentais depois da II Guerra Mundial, especialmente entre esquerdistas ateus, mas não só eles.

O livro é dividido em três partes, cada uma subdividida em pequenos capítulos. Na primeira parte, que inclui o pensamento sobre o Big Bang que mencionei, os capítulos são uma divagação sobre algo que envolva conhecimento científico mas que, infalivelmente, trazem alguma moral ESG. Por exemplo, em "O olhar de Deus e a torneira que pinga", ele começa falando da antiga crença egípcia de que o sol era Deus para tratar da natureza da luz, explicar que as cores se determinam pelo comprimento das ondas e... Concluir que, cientificamente, não é correto usar a melanina para diferenciar humanos brancos de negros, porque na maior parte do espectro da luz visível e invisível (abarcando tanto o infravermelho quanto o ultravioleta) os homens são negros. "Só na luz visível, quando muitas moléculas são transparentes, é que a anomalia da pele branca se torna até possível." Pronto: num sofisma evidente, que leva o pedantismo a níveis nunca dantes alcançados, a Ciência acabou com o racismo e provou a superior correção do termo "afro-americano".

Sagan também se mostra como um homem sensível. Em "O mundo que chegou pelo correio", primeiro texto da segunda parte, que é sobre ambientalismo, o mundo referido é um aquário de camarões que ele havia encomendado. Sagan descreve de maneira emocional a anatomia dos camarões, suas semelhanças com os humanos, até que chega à misteriosa morte dos bichos, decorrente de algum desequilíbrio ambiental. Mortos os camarões, Sagan chora. Tudo isso para comparar o seu pequeno mundo do aquário a este grande aquário chamado Terra, onde algum misterioso desequilíbrio ambiental pode nos matar a qualquer momento.

E vale tudo para o terrorismo ambientalista, inclusive dados científicos incorretos. Por exemplo, em "O meio ambiente: Onde reside a prudência?", Sagan afirma que "Depois de prosperarem por 180 milhões de anos, os dinossauros foram extintos. Todos sem exceção. Nenhuma espécie tem garantido o seu lugar neste planeta." Ora, as aves são, desde a década de 1970, consideradas dinossauros vivos; a suposição do parentesco entre as aves e os dinossauros desde o século XIX mobilizava os cientistas. Eu não tenho conhecimentos respeitáveis em ciências exatas e biológicas, e mesmo assim fui capaz de encontrar afirmações inverídicas no texto de Sagan. Se um cientista ler Bilhões e bilhões, na certa encontrará muito mais falsidades na obra mais madura do arquetípico divulgador científico, o cientista que não tem nenhuma grande contribuição individual à ciência.

Agora, uma coisa que eu aprendi lendo Sagan é que, por mais que haja evidentes questões geopolíticas em jogo na imposição do neomalthusianismo ao terceiro mundo, a ânsia tecnocrática é uma consequência necessária da cosmovisão epicurista/materialista.

Na primeira parte do livro, Sagan se empenha em retratar a vida na Terra como um fenômeno extremamente improvável, decorrente de um concurso quase impossível de incontáveis variáveis materiais. Quanto mais se procura por vida inteligente noutro planeta e não se encontra (coisa que ocorreu a Sagan por toda a sua vida adulta), tanto mais milagrosa parece a vida humana. Mutatist mutandis, é como se ficássemos pensando que a nossa mãe poderia não ter conhecido o nosso pai; que, conhecendo, a cópula fértil poderia ter acontecido noutro mês, com outro óvulo; ou, caso fosse naquele mês, que o óvulo poderia ter sido penetrado por outro espermatozoide etc. Como disse o humorista Millôr Fernandes, "minha mãe nasceu na Itália, meu pai nasceu na Espanha e eu nasci no Rio. Não sei como nos encontramos!"

Essa visão retrospectiva, teleológica demais para um evolucionista, deixa Sagan num estado de ansiedade: as excepcionalíssimas condições da vida na terra podem se desfazer num piscar de olhos. Na verdade, até devem se alterar, já que tudo o que existe são átomos e vazio, com os átomos se movendo sem parar, engendrando caos e ordem de maneira cega. Quem tiver uma cosmovisão epicurista/materialista sentirá essa urgência em apertar um botão de pause no universo, ou pelo menos na Terra, a fim de conservar esse momento fortuito em que a Terra se encontra favorável à vida humana.

A qualquer momento pode aparecer um asteroide que acabe com tudo. Além disso, o homem é um animal perigoso, porque fica inventando coisas que interferem na atmosfera. Por exemplo, inventou a medicina moderna, que reduziu a mortalidade, fez com que a população aumentasse e houvesse mais gente consumindo energia. Inventou o CFC, que estava fazendo um buraco na camada de ozônio, que ia matar umas algas muito importantes depois de deixar os brancos com câncer de pele - os brancos, responsáveis pelo CFC, provando que existe justiça cósmica. (Todos eram negros até poucas páginas atrás, mas deixa pra lá.)

Assim, para apertar esse grande botão de pause, é preciso controlar a difusão da tecnologia, controlar a natalidade, dar poder político real às mulheres (que elas tinham no Pleistoceno e não têm hoje), porque se as mulheres tiverem poder político real, elas vão aderir à contracepção. (Não entendi a coisa do Pleistoceno; espero que ele explique na terceira parte, sobre aborto.) E mais: é preciso dar poder aos cientistas, porque só os cientistas se dedicam a enxergar catástrofes no longo prazo. A espécie humana é falha porque a evolução a levou a pensar num prazo muito curto. Aliás, esta é a sua grande falha: pensar em pôr comida na mesa dos filhos, em vez de olhar mais para o futuro e pensar no aquecimento global. Assim, os formuladores de políticas públicas têm que ir aos cientistas para pensar no longo prazo, e um esforço de propaganda precisa ser feito para conscientizar a população.

A antropologia que decorre do materialismo de Sagan tem tudo a ver com o pedantismo que sua obra exala. O homem tem falhas que decorrem da evolução: o pensamento de curto prazo decorre de ter, até então, sido necessário pensar somente na sobrevivência dos próprios filhos, em vez da espécie. No entanto, há um clima de Fim da História na obra de Sagan: a humanidade já aprendeu a explicar o mundo sem Deus, a partir apenas da matéria, e agora se guia pela Ciência, que é a maior autoridade. Agora, que atingimos esse pináculo existencial que põe fim à "infância da humanidade", é hora de traçar planos globais para as próximas gerações, visando a apertar esse botão de pausa cósmica e manter a Terra nas efêmeras condições propícias à vida humana. Por conseguinte, o que temos são pessoas literalmente mais evoluídas do que outras - uma aberração à qual nenhum cientista sério (coisa que Sagan não é) assentiria, mas que está presente de modo tácito. Para sobreviver à seleção natural, a humanidade precisa se submeter à Ciência, e aqueles que não quiserem colaborar estão se colocando do lado da extinção. Assim, subjugar - ou, no limite, até aniquilar - os seres inferiores é uma questão necessária à sobrevivência da humanidade como espécie.

Durante a pandemia, uma coisa que intrigou muita gente bem informada sobre o funcionamento de vacinas ordinárias foi a obsessão da seita de Fauci pela sujeição de todos às supostas vacinas de covid. Ora, se as vacinas imunizam (bem como a própria doença), por que os vacinados precisam tanto da vacinação dos dissidentes ? A resposta está nessa cosmovisão de Sagan: de que a humanidade só terá um futuro se a coletividade obedecer aos ditames da Ciência. E ele próprio encerra a parte sobre ambientalismo exaltando as crises mundiais, climáticas ou não, por fazerem "surgir poderes, antes não canalizados e nem sequer imaginados, de cooperação, engenhosidade e compromisso."

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