
Raphael Machado
É necessário chamar a atenção para o discurso de Lula logo após o encontro com Trump.
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Aconteceu essa semana um encontro prometido desde o final do ano passado, a visita do presidente brasileiro, Lula, à Casa Branca. A preparação dessa visita vem desde o momento em que os EUA decidiram recuar em relação às tarifas e sanções impostas ao Brasil, num contexto que chamou a atenção pelo fato de que não estava muito claro o motivo pelo qual os EUA teriam recuado.
A pressão dos EUA em si veio por influência do lóbi bolsonarista em Washington, capitaneado por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Mas as tarifas parecem ter prejudicado mais a economia dos EUA do que a do Brasil, já que parte significativa do prato de comida do estadunidense médio é garantida através de importações brasileiras. Ao mesmo tempo, analista alertaram para o fato de que a hostilidade estadunidense corria o risco de pôr a perder décadas de trabalho de influência e infiltração nos meios políticos, econômicos, jurídicos e acadêmicos brasileiros, visando garantir um certo alinhamento entre ambos países.
Tendo voltado atrás, porém, os EUA demonstraram estar interessados em entrar num novo entendimento com o Brasil, primando pela questão das terras raras. Mas é importante apontar para um fator quase nunca mencionado: pode ter sido parte do contexto de pacificação entre EUA e Brasil algum papel desempenhado pelo governo brasileiro no cerco à Venezuela que culminou com o sequestro de Nicolás Maduro.
É que o mesmo empresário tido por responsável por convencer Trump a recuar, Joesley Batista, um dos sócios da gigante da carne JBS, viajou também para Caracas no final de 2025, supostamente encarregado da missão de convencer Maduro a abandonar o país em troca de determinada quantia. Maduro teria se recusado, e sabemos o que aconteceu logo em seguida.
É interessante mencionar este empresário brasileiro - o qual é, sozinho, responsável por 20% da carne consumida nos EUA - porque ele parece ser, também, o articulador da reunião entre Trump e Lula nesta semana.
Agora, bem, por um lado, o lóbi bolsonarista nos EUA temia esse encontro pela proximidade de aproximação entre Brasil e EUA; mas alguns setores governistas também o temiam pela possibilidade de sedução de Lula por Trump.
A realidade é que, como já apontado em algumas ocasiões anteriores, ao contrário da imagem de "líder anti-imperialista" ou "Chávez brasileiro", Lula é um político social-liberal bastante apegado àquele modelo "europeu" de política progressista que prioriza o cosmopolitismo, a obediência à ONU e o respeito por minorias étnicas e sexuais. Muito mais grave do que isso tudo, neste contexto, porém, é o fato de que no próprio Partido dos Trabalhadores há amplos setores pró-EUA, vinculados inclusive profissionalmente e financeiramente ao ecossistema internacional de ONGs e ao Partido Democrata, mas também ao meio empresarial estadunidense. O próprio corpo diplomático brasileiro tem sido historicamente atlantista há décadas e o oficialato militar ainda mais e por mais tempo.
É por isso que para além de ocasionais "palavras duras", não há o menor indício de que Lula oferecerá muita resistência a Trump caso o presidente dos EUA não seja excessivamente intransigente.
Tudo indica, por exemplo, que o Brasil não pretende interferir com a aquisição de terras raras brasileiras pelos EUA, apesar de dizer desejar que o processamento dessas terras raras se dê em território brasileiro. Também existe o risco significativo de uma maior integração entre forças policiais e agências de inteligência de ambos países, sob a justificativa do combate ao narcotráfico.
A realidade é que Lula teme enfrentar Trump por se preocupar com a possibilidade de uma interferência dos EUA nas eleições brasileiras a se realizarem em outubro. Em troca de eleições tranquilas, portanto, Lula estaria disposto a assumir uma postura significativamente branda em relação aos EUA.
É necessário, por exemplo, chamar a atenção para o discurso de Lula logo após o encontro com Trump. O mandatário brasileiro disse, com todas as letras, que queria que os EUA aumentassem a sua atenção e presença no Brasil, visando rivalizar com a China. Com isso, o Brasil crê poder obter melhores barganhas, mesmo que às custas de uma plena autonomia em relação aos EUA.
Naturalmente, tudo isso torna razoável questionar o grau de comprometimento do Brasil com os BRICS.