
Raphael Machado
O Pacto de Segurança assinado em setembro de 2026 modifica completamente as relações entre EUA e Dinamarca, praticamente cedendo a Groenlândia aos EUA.
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Uma das principais polêmicas ao longo deste segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca tem sido a questão da Groenlândia. De um modo bastante repentino e inesperado (para os leigos) Trump, já no início de seu mandato, declarou que os EUA necessitavam da Groenlândia.
Os observadores mais atentos já sabiam de duas tendências simultâneas que se faziam presentes na política externa e no pensamento estratégico dos EUA, e talvez não tenham sido pegos de surpresa: a renovação da Doutrina Monroe e a corrida pelo Ártico.
A renovação da Doutrina Monroe responde à necessidade de compensar perdas e recuos em outros espaços geopolíticos extra-americanos - frutos da ascensão de novas potências que desafiam a hegemonia estadunidense. Garantindo a própria "retaguarda", os EUA creem poder preservar até mesmo a sua liderança internacional, inclusive perante a pressão chinesa.
Já a corrida pelo Ártico consiste na percepção do polo norte como novo cenário de disputas geopolíticas, fruto tanto do atual momento de aquecimento das temperaturas mundiais quanto do avanço nas técnicas de abertura de passagens nas zonas gélidas. Além de abrigar recursos naturais ainda inexplorados e poder servir como rota comercial e logística, o Ártico ainda constitui uma possível rota de mísseis intercontinentais, o que acaba tendo seu próprio valor estratégico.
A Groenlândia, espaço norte-americano sob posse europeia (dinamarquesa) situado na beirada do Ártico, portanto, se situa na encruzilhada de duas pautas extremamente atuais para os estrategistas estadunidenses.
Assim, ao final de 2025, Trump nomeou o governador Jeff Landry como enviado dos EUA para a Groenlândia com o objetivo explícito de fazer do território parte dos EUA. A Dinamarca, evidentemente, encarou a "missão" como ameaça, e reagiu tentando apelar aos seus aliados europeus da União Europeia, especialmente a França de Macron.
Não se tinha certeza de quais seriam os planos dos EUA, mas falou-se tanto na possibilidade de um desembarque de tropas quanto na tentativa dos EUA de fomentar uma revolução colorida e um referendo separatista. Outros apostaram na possibilidade de que a pressão dos EUA visava forçar a Dinamarca a negociar e a levaria a fazer amplas concessões aos EUA, mesmo enquanto preservasse nominalmente sua soberania sobre o território.
Pois foi exatamente essa última hipótese que se configurou.
Em primeiro lugar, importante apontar que houve muita performance por parte dos países europeus, especialmente da França. A União Europeia ameaçou enviar tropas para a Groenlândia, fez-se inclusive alusão à possibilidade de um conflito aberto com os EUA. No fim das contas, porém, a resistência europeia se provou apenas verbal. O diálogo foi iniciado e seu resultado não deixa lugar para dúvidas.
De fato, já existia um acordo de defesa assinado entre EUA e Dinamarca em 1951, no contexto da Guerra Fria e no âmbito das relações internas da OTAN, sobre a Groenlândia.
O acordo em questão autorizava os EUA a construírem bases militares no território groenlandês, no contexto das operações e planejamentos desdobrados no âmbito da OTAN, sempre em consulta e com aprovação do governo dinamarquês. Ademais, o tratado autorizava deslocamentos militares entre bases segundo regras pré-determinadas pelas autoridades dinamarquesas.
O Pacto de Segurança assinado em setembro de 2026 modifica completamente as relações entre EUA e Dinamarca, praticamente cedendo a Groenlândia aos EUA, ainda que a ilha permaneça sob posse nominal do governo dinamarquês.
Primeiro, o novo pacto é completamente desvinculado do contexto da OTAN. Trata-se de um acordo puramente bilateral. As decisões tomadas pelos EUA em relação à Groenlândia não dependem mais de qualquer inserção em algum projeto estratégico da OTAN, tampouco esses arranjos estão adstritos à própria duração da OTAN.
Segundo, o novo pacto autoriza a expansão da base já existente em Pitufikk e a construção de novas bases em Narsarsuaq e Mestersvig, mas é permitido também aos EUA decidir construir novas bases se considerar que isso é necessário para garantir a segurança nacional de seu território, só precisando consultar o governo dinamarquês após os fatos. Cidadãos e mesmo o governo dinamarquês, aliás, só podem construir no espaço ao redor das bases com a permissão dos EUA.
Terceiro, os EUA ganham poder de veto sobre a presença militar e sobre investimentos estratégicos de quaisquer países não-membros ou não-parceiros da OTAN no território groenlandês. Qualquer país que queira, por exemplo, construir um observatório ou investir num porto na Groenlândia precisarão da autorização dos EUA. Desnecessário dizer, que o alvo principal desse veto será a China.
Ao longo dessa primeira metade do segundo mandato de Trump seu governo tem tido alguns poucos triunfos e várias decepções. A sua popularidade está em baixa, ele foi derrotado no conflito com o Irã, as tarifas não levaram a uma reindustrialização como prometido e as "deportações em massa" vão devagar. Mas, até agora, talvez devamos considerar essa quase-anexação da Groenlândia como um triunfo significativo e bastante sério, que vai situando o Ártico como palco de futuras disputas geopolíticas e dando uma vantagem significativa para os EUA nesse contexto de conflitos e competições.