19/04/2026 strategic-culture.su  7min 🇸🇹 #311549

Até Hobbes tem um pé na cabala

Bruna Frascolla

Com certeza Hobbes sabia muito bem que estava escolhendo seguir uma corrente ocultista e, no fundo, anti-cristã, em sua filosofia social.

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Não é só para compreender as origens do sionismo cristão que Isaac La Peyrère importa. Foram duas as suas obras mais polêmicas: Du rappel des juifs e Prae-Adamitae. A primeira, referente aos judeus, vimos no último artigo. Hoje temos de ver Prae-Adamitae, que influenciou Hobbes.

A concepção hobbesiana do homem é contrária à aristotélico-tomista

"O lobo é o lobo do homem" é uma frase que se repete irrefletidamente, sem que se levem em conta a sua história e sua dimensão antropológica. Seu contexto original até é bem conhecido: a obra Leviatã, de Thomas Hobbes, publicada em 1651. Hobbes escolheu o nome de um demônio - Leviatã - para ser a criatura artificial composta por uma fusão de homens, capaz de impedir que os homens façam mal uns aos outros. O Estado é esse demônio monstruoso, e no frontispício da edição original o Leviatã tem o rosto do puritano Oliver Cromwell, que segura uma espada e se ergue sobre as cidades. No ano da publicação, a Inglaterra estava em sua breve fase republicana, e Cromwell havia acabado com a guerra civil. Acima do monstro, uma citação do livro de Jó deixa claro que se trata do poderoso demônio veterotestamentário. Assim, para Hobbes, o homem é mau, e somente pela fusão dos vários homens num demônio (operação feita via contrato social) é possível impedir que eles se entredevorem. O homem é o lobo do homem, o Estado é um demônio e a sociedade é, por assim dizer, um pacto com o diabo.

O que pouca gente sabe é que a frase de Hobbes é a negação de uma frase mais velha, de Francisco de Vitória: "o homem não é um lobo para o homem, mas homem". Francisco de Vitória (1483 - 1546), que morreu antes da publicação do Leviatã, era um teólogo da Escola de Salamanca. Como herdeiro da tradição aristotélico-tomista, considerava que o homem é um animal social. Longe de ser obra demoníaca contra a natureza lupina, a organização social decorre da própria natureza sociável do homem.

Se para Hobbes o homem é antissocial por natureza, não é de admirar que o estado de natureza pensado por ele seja o da guerra de todos contra todos. Seja na época de Hobbes ou de Rousseau (outro contratualista que discute muito o assunto), havia o questionamento de quando poderia ter existido tal estado, do qual não temos notícias. Especialistas não raro sugerem que é uma abstração. A resposta, porém, está no Prae-Adamitae, de La Peyrère.

Influência da cabala sobre o pré-adamitismo

A teoria de La Peyrère em Prae-Adamitae é que São Paulo, em Romanos 5,12-14, dá a entender que existiam homens antes de Adão para os quais a Lei não valia. Eis a passagem: "Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram... De fato, até a lei o mal estava no mundo. Mas o mal não é imputado quando não há lei. No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir)."

Peyrère defendia que a Bíblia contava somente a história judaica, de modo que Adão seria o ancestral somente dos judeus, e o resto da humanidade seria descendente dos pré-adamitas. Para (não) variar, a ideia é tomada de empréstimo da cabala. Segundo lemos em Isaac La Peyrère (1596 - 1676): His Life, His Influence, de Richard Popkin, Giordano Bruno já havia defendido o pré-adamitismo antes de Peyrère, e havia feito isso com base uma teoria cabalística que afirmava que Deus criou três "protoplastos", dos quais Adão é o terceiro em ordem cronológica e é o ancestral só dos judeus.

A cabala e o livre exame do Novo Testamento se somavam à dificuldade de explicar a origem dos homens das Américas. A hipótese dos pré-adamitas tinha a vantagem resolver o mistério simplesmente dizendo que eles estavam lá ab origine e não tinham nada a ver com Adão.

Por ser herética segundo todas as instituições cristãs da época, Prae-Adamitae circulou por anos em forma manuscrita. O livro foi impresso só em 1655, com dinheiro de Cristina da Suécia. Consultando os papéis disponíveis, Richard Popkin estima que em 1640 a obra já existisse. Em 1643 o jurista Hugo Grotius publicou uma réplica ao manuscrito intitulada Dissertatio altera de origine Gentium Americanarum adversus obtrectatorem, ou "Outra dissertação sobre a origem dos povos americanos, contra um detrator" - outra, porque nem era a primeira. Nela, Grotius defende que os povos americanos descendem dos nórdicos que foram para a Groenlândia, e Peyrère se tornaria nos anos seguintes um verdadeiro especialista em Groenlândia para provar que os esquimós não descendem dos nórdicos.

Mas não percamos o fio da meada. Para Peyrère, antes da criação do primeiro judeu (Adão), não existia lei, e vigia, portanto, o estado de natureza. Tal como em Hobbes, a natureza é oposta a lei. Cito Popkin: "Isto [i.e., a explicação da passagem de São Paulo] o levou à interessante questão de como era o estado do homem antes de Adão. Era sem lei, já que a lei começou com Adão. La Peyrère chama isto especificamente de 'o estado de natureza', e descreve como uma condição sórdida e brutal. Tudo podia ocorrer e nada era crime. Adão foi a primeira pessoa a viver numa sociedade com lei, e o primeiro a ser capaz de pecar. Assim, o sentido em que Adão é o pai da humanidade é que é a partir dele que nós somos todos pecadores. Mas, como La Peyrère toma o cuidado de dizer, isso não faz dele o ancestral real da população humana inteira" (p. 44-45).

Peyrère influenciou Hobbes

O fato de a concepção do estado de natureza de Hobbes e Peyrère ser igual não é coincidência. Em 1640, com a guerra civil no horizonte, Hobbes foge para a França e se enturma com o mesmo ambiente social frequentado por Peyrère, o círculo de Mersenne, Gassendi e Naudé. Era o círculo dos materialistas e libertinos eruditos. Ele viveu lá de 1640 até 1651, e voltou à Inglaterra com o Leviatã e o De Cive já escritos.

Popkin aventa a possibilidade de Peyrère e Hobbes terem desenvolvido juntos a ideia de estado de natureza, ou até de Peyrère ter tomado de Hobbes. Mas, dado que o ambiente intelectual francês foi importante para Hobbes e que Peyrère já estava nele antes, tampouco é impossível que Hobbes tenha tomado de Peyrère - sobretudo porque, como aponta Popkin, "é digno de nota que Hobbes foi atacado por não poder dar uma data cronológica para o estado de natureza sem imputar uma sociedade sem lei às ações de Deus. Uma vez que Hobbes presumivelmente aceitava o relato bíblico, o mundo começava com Adão, e a lei começou aí. Depois disso, algum tipo de Ordem Divina prevaleceu até esse momento. Então, quando esse estado de natureza poderia ter ocorrido ? Hobbes era evasivo ao lidar com esse ponto, evitando colocar o estado de natureza no tempo histórico. La Peyrère, por outro lado, tinha uma solução simples. Havia um tempo indefinido antes de Adão, durante o qual não havia Ordem Divina" (p. 45).

É mais razoável supor, então, que Hobbes tenha tomado a ideia de Peyrère como premissa e não a tenha explicitado em virtude do seu caráter herético. Há pelo menos mais um exemplo dado por Popkin em que Hobbes se apresenta como adepto de uma versão light das heresias de Peyrère: enquanto Hobbes escrevia que Moisés não poderia ser autor de todo o Pentateuco porque lá consta a sua morte, Peyrère punha em questão a autoria de todo o Pentateuco. A fonte dessas dúvidas era um rabino medieval chamado Ibn Ezra, que tinha voltado à circulação em meios protestantes no século XVI. E quanto à inspiração na cabala, a própria ideia do Rappel des Juifs é tomada da cabala, pois o Rei da França cumpriria o papel do Messias da Casa de José de levar os judeus para a Terra Santa e preparar o terreno para o Messias da Casa de Davi.

A ideia de que a Lei é arbitrária e pode ser mudada a qualquer instante por um capricho divino está em conformidade com a tradição cabalista. Ao mesmo tempo, está em contrariedade com a tradição aristotélico-tomista.

Com certeza Hobbes, que andava com libertinos da França e foi secretário de Francis Bacon, sabia muito bem que estava escolhendo seguir uma corrente ocultista e, no fundo, anti-cristã, em sua filosofia social. Ninguém escolhe o nome de um demônio para a sua obra em vão. Nos dias de hoje, porém, milhões de cristãos adotam sistemas filosóficos ligados ao hobbesianismo - como os contratualismos de Locke e Rousseau - acreditando se tratar de alguma coisa neutra e que está a quilômetros da teologia.

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