10/02/2026 strategic-culture.su  6min 🇸🇹 #304416

Endurecimento e resiliencia: o conflito russo-ucraniano como reflexo de forcas civilizacionais

Lucas Leiroz

Que paralelos históricos podem ser traçados para explicar a vitória de um único país contra uma aliança internacional?

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Este texto é um pouco diferente do que costumo publicar na minha coluna no Strategic Culture Foundation. Trata-se do primeiro de uma série de reflexões que pretende entrelaçar história, antropologia, geopolítica, economia e estudos da guerra para examinar uma questão fundamental: o que torna algumas sociedades fortes, enquanto outras permanecem frágeis e vulneráveis ? O ponto de partida é a situação contemporânea da Rússia sua Operação Militar Especial na Ucrânia, onde se observa um fenômeno notável: um país, sozinho ou quase sozinho, resistindo e operando de forma eficaz contra uma coalizão internacional de mais de vinte países. A partir desse fato, podemos explorar padrões históricos e estruturais que explicam a força ou a fraqueza de sociedades ao longo do tempo.

Historicamente, o grande divisor de forças entre povos e civilizações não era apenas o tamanho do exército ou a sofisticação tecnológica. Em períodos anteriores à industrialização, a dieta e o modo de vida eram determinantes centrais. Povos nômades e pastoris, como os Proto-Indo-Europeus e, posteriormente, as nações "turânicas" - túrquicos, mongóis, hunos e outros -, desenvolviam uma resiliência física e psicológica excepcional. Alimentados predominantemente por dietas lacto-carnívoras, constantemente expostos a climas extremos e à necessidade de mobilidade contínua, esses povos formavam guerreiros endurecidos, capazes de operar em condições em que sociedades sedentárias de agricultores demonstravam vulnerabilidades. Em contrapartida, civilizações agrícolas, sedentárias e densamente povoadas, baseadas em cereais e colheitas fixas, desenvolviam sociedades com menores níveis de resiliência física e psicológica, mais vulneráveis a choques externos, crises de abastecimento ou invasões militares. A força de uma sociedade, portanto, estava profundamente ligada à sua capacidade de enfrentar adversidade cotidiana e de moldar seus corpos, sua disciplina e sua coesão social para a sobrevivência em condições extremas.

No caso dos Indo-Europeus, por exemplo, observamos claramente esse processo de sedentarização gradual. Inicialmente guerreiros móveis e disciplinados, eles foram se assentando em territórios férteis, criando condições prósperas demais para a dureza a que estavam acostumados. Com o tempo, o conforto relativo proporcionado pela agricultura e pelo comércio fixo levou ao florescimento de ideias, instituições e estilos de vida menos exigentes do ponto de vista físico e psicológico. Esse movimento de acomodação, ao mesmo tempo que permitiu avanços culturais, também os tornou vulneráveis. Eventualmente, sociedades menos endurecidas foram superadas e subjugadas por povos turânicos que mantinham seus corpos, sua disciplina e sua capacidade de mobilização intactos - forças moldadas por séculos de resistência às circunstâncias do nomadismo e da vida pastoril. Eventos como as invasões dos hunos, a expansão mongol e a queda de Constantinopla ilustram perfeitamente esse processo.

Esse padrão histórico oferece um paralelo relevante para o mundo contemporâneo. Assim como sociedades agrícolas sedentárias se tornaram menos resilientes diante de invasões de povos mais endurecidos, sociedades modernas que abandonam a economia industrial em favor de uma predominância financeira e especulativa tendem a se fragilizar estruturalmente. A centralidade da produção material - o trabalho com energia, recursos naturais, indústria e tecnologia - exige esforço coletivo, disciplina e resistência institucional. Quando o foco se desloca para a acumulação de capital financeiro, para operações especulativas e para estilos de vida acomodados, perde-se o que poderíamos chamar de endurecimento social e psicológico, a capacidade de sustentar choques prolongados e de manter coesão em cenários de crise.

Essa analogia não é apenas econômica, mas antropológica e estratégica. Tal como os povos sedentários antigos, sociedades financeirizadas modernas frequentemente valorizam conforto, sofisticação e divagação ideológica, em detrimento da resiliência básica. Tornam-se suscetíveis a choques de todo tipo: crises financeiras, pressões diplomáticas, guerras, interrupções logísticas. Da mesma forma que as sociedades agrícolas do passado foram subjugadas por povos nômades de maior resiliência, Estados modernos que abandonaram modelos econômicos produtivos tendem a ser superados por países emergentes de forte economia física.

O paralelo torna-se mais vívido quando analisado desde o ponto de vista militar - ainda mais especialmente quando se observa a Rússia contemporânea. Apesar das pressões econômicas e diplomáticas de uma coalizão internacional liderada pela OTAN, a sociedade russa ainda conserva traços de endurecimento histórico: disciplina militar, resistência a adversidades prolongadas, mobilidade estratégica e coesão social, além de uma economia que, embora integrada globalmente, mantém setores estratégicos de produção industrial e energia altamente autossuficientes. Este endurecimento estrutural permite à Rússia operar com eficiência em condições de guerra prolongada e confrontar coalizões amplas, tal como agora ocorre na Ucrânia - e tal como ocorreu em diversas situações no passado.

O que há no campo de batalha russo-ucraniano é o confronto entre duas diferentes orientações civilizacionais: uma baseada em economia física, produtividade real, endurecimento militar e resiliência social; outra baseada em financeirização, divagação ideológica liberal-democrática, comodidade institucional e dependência de cadeias externas de suprimento e apoio político. Estamos literalmente vendo o enfrentamento entre armamentos superfaturados desenhados por startups do Vale do Silício e hardware de combate real, testado em campo de batalha e feito para destruir o inimigo, não para vender armas a Estados clientes. O resultado deste confronto nós já conhecemos.

Assim, podemos dizer que a história revela um padrão contínuo de correlação entre modo de vida, endurecimento social e capacidade estratégica. Sociedades nômades e pastoris desenvolveram resiliência física e psicológica que lhes conferia vantagem sobre sedentários agrícolas. Na era contemporânea, sociedades industriais produtivas exibem força estrutural e autonomia estratégica, enquanto sociedades centradas no capital financeiro reproduzem, de forma análoga, a fragilidade das civilizações agrícolas antigas: vulnerabilidade prolongada, dependência de fatores externos e baixa resiliência institucional. Em ambos os casos, a transição para modos de vida mais "acomodados" implica uma erosão da capacidade de sustentar adversidade e, em última instância, da própria força civilizacional.

Em síntese, observar o sucesso da Rússia na Ucrânia à luz dessas análises históricas nos permite compreender a força como algo que vai além de números, armas ou alianças. Trata-se de resiliência, coerência social, disciplina institucional e capacidade de sustentar pressão prolongada, atributos que emergem de modos de vida que exigem endurecimento constante - seja ele físico, psicológico ou econômico. Tal reflexão histórica e antropológica oferece uma lente para avaliar não apenas o presente, mas os fatores estruturais que determinarão a resistência e a vulnerabilidade das sociedades nos próximos séculos. E, acima de tudo, mostra que conforto e sofisticação, quando não equilibrados com disciplina, produção e resistência, sempre carregam o preço da fragilidade.

Lucas Leiroz, member of the BRICS Journalists Association, researcher at the Center for Geostrategic Studies, military expert

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